20 de setembro: precursor da liberdade?

Nesses dias que antecedem o dia 20 de setembro, tenho recebido fotos e vídeos das minhas sobrinhas devidamente pilchadas para irem à escola.  Meu feed no instagram  se encheu de gauchinhos e gauchinhas comemorando a semana farroupilha. Tais imagens me transportaram para algumas memórias infantis quando entusiasmadíssima “subia ao centro” junto com meus pais em busca de um vestido de prenda.

No dia 20 de setembro, milhares de gaúchos e gaúchas participam das comemorações alusivas ao Dia da Revolução Farroupilha. Por todo o Rio Grande do Sul, a data é comemorada com desfiles, acampamentos tradicionalistas e apresentações artísticas, nas quais a cultura gaúcha é exaltada. 

E será que foi mesmo uma revolução? Para alguns historiadores, uma revolução promove mudanças políticas, sociais e culturais e não foi bem isso que aconteceu por aqui. Nesse período histórico, o Brasil passava por várias revoltas de províncias em todo o país, causadas pelo descontentamento da centralização do poder da monarquia. Aqui no Rio Grande do Sul, o estopim para a revolta foi o aumento do imposto do charque e, vale destacar, que a guerra deu-se entre as elites gaúchas e de grupos de militares insatisfeitos

Durante a guerra, as elites prometeram que, ao final, dariam uma carta de alforria para aqueles escravos que aceitassem batalhar. Os escravos lutaram por 10 anos e formaram, os chamados Lanceiros Negros, mas nunca receberam a prometida liberdade. Para o historiador Maurício Dorneles, os farroupilhas carregam duas culpas: a de não ter cumprido o tratado e a de serem cúmplices no Massacre de Porongos, em 14 de novembro de 1844. 

A percepção ‘romantizada’ dos gaúchos sobre o que foi a Guerra dos Farrapos é um elemento importante que, segundo o historiador Juremir Machado da Silva, contribui para que as pessoas comemorem muito mais um certo “mito” da vida no campo e das tradições gauchescas do que propriamente a história da revolta. Para Taiasmin Ohmacht, a exclusão da negritude na história, velada ou mascarada, corresponde, ao mito oficial da constituição do povo gaúcho: a “Revolução” Farroupilha, uma história de traição e massacre em uma revolução tida por ideal na região sul do país.

Para Juremir a questão folclórica é muito importante, tem relação inclusive com o que Maffesoli chamou de tribalização do mito, pertencer a alguma coisa, vibrar em comum, se sentirem em grupo, ter rituais. Por outro lado, o mito fundador não é exatamente o que as pessoas acham que ele é, o que ele foi. A Revolta Farroupilha historicamente não é o que muitos dos tradicionalistas dizem que ela foi. 

O folclore tem valor, mas não precisa se amparar numa visão ideológica preconceituosa. Na concepção de Paulo Freire, a educação é antes de tudo um gesto político, sendo necessário ensinar os alunos a pensar, e ensinar a pensar não seria subversão, e, sim, dar um sentido à formação na vida e para a vida deles. Assim, a construção do conhecimento passa pela crítica e pela contextualização, pois a história de um povo não é a mera sucessão de acontecimentos a partir de uma única perspectiva.

Para finalizar, vale a leitura do e-book “NósOutros Gaúchos – As Identidades dos Gaúchos em Debate Interdisciplinar”. Para inventar o gaúcho que queremos ser, convém lembrar um verso: \”Quero aprender a não ser!\” (Negrinho do Pastoreio, de Augusto Meyer). Para o psicanalista Robson Freitas Pereira, uma narrativa totalizante mata a riqueza de nossas origens. Para que não se percam, sejam elas gloriosas ou dolorosas, precisam fazer parte de nossa memória. Resistir ao esquecimento é fundamental, para podermos inventar um projeto de futuro à altura dos desafios de nosso tempo.

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