Sempre tive um carinho especial por Porto Alegre. Durante minha infância e adolescência a cidade era parada obrigatória nas viagens em família rumo ao litoral gaúcho, na ida ou na volta. Quando criança pedia que meus pais me acordassem quando estivéssemos na ponte do Guaíba. Achava aquela experiência de cruzar a ponte maravilhosa.
Os anos passaram e já moro na capital gaúcha há quase uma década e passei, então, a conhecê-la de fato. Escolhi Porto Alegre para seguir estudando após a faculdade. Aqui fiz especialização e mestrado, dei aula, montei meu consultório, fiz amigos, construí minha família. Porto Alegre me acolheu carinhosamente e sou extremamente grata por tudo o que essa cidade me proporcionou e segue me proporcionando.
“Nas manhãs de domingo,
esperando o Grenal
passear pelo brique
num alto astral”
Essa estrofe, parte da canção “Porto Alegre é demais”, hino não oficial de Porto Alegre na voz de Isabela Fogaça, fala das belezas e delícias de Porto Alegre e de seu clima alto astral. É realmente muito triste ver minha querida Porto Alegre noticiada ao mundo pelo The New York Times como o “coração de um colapso monumental no sistema de saúde do Brasil” no mês em que comemora seu aniversário de 249 anos.
Nessa reportagem, o atual prefeito da cidade é citado como uma liderança que está mais preocupada com a economia do que em vencer a crise sanitária e salvar vidas. A matéria segue discorrendo em detalhes sobre o caos pelo qual a cidade vem sendo assolada.
É triste, mas a pandemia criou em muitos, como disse o psicanalista Mario Corso, e me incluo nesses muitos, em sua coluna na ZH, um desencanto com a humanidade que parece estar emburrecendo. Para a psicanálise, nossos atos são fruto de escolhas éticas pelas quais somos inteiramente responsáveis.
Parece que evolução não é uma boa palavra para designar nossa humanidade. Nós, homo sapiens, que dominamos o planeta enquanto o destruímos. Se por um lado, nossos atos são de nossa responsabilidade, não deixam de se relacionar com o ambiente à nossa volta, ao qual reagimos por ação ou omissão.
Se não somos, então, capazes de mudar nossa tendência destrutiva, podemos, então, lidar com ela. Lutar por uma sociedade que não faça da violência seu slogan e que busque valorizar o cuidado de si e do outro. Anseio pelo momento em que, não só em Porto Alegre, mas no resto do mundo, possamos fazer jus aos versos “É lá que eu vivo em paz. Porto Alegre é demais”
