No mês em que comemoramos o dia das mães, é de extrema importância discutirmos sobre a sobrecarga no exercício da maternidade nessa pandemia. Um levantamento realizado pela Organização das Nações Unidas Mulheres – entidade internacional que luta em defesa dos direitos das mulheres – destacou que, além de estarem mais expostas ao vírus por representarem 70% dos profissionais da área de saúde no mundo, elas estão mais sobrecarregadas com tarefas domésticas e cuidados com outros membros da família.
Outra pesquisa, realizada pela Sempreviva Organização Feminista (SOF) com 2.641 entrevistadas, mostrou que 50% das mulheres brasileiras passaram a ser responsáveis pelo cuidado de um idoso ou de uma criança nesse período. Ainda segundo o levantamento, 41% afirmaram trabalhar mais na quarentena. E, para 40% delas, o isolamento social colocou em risco o sustento dos lares.
No domingo, 9 de maio, o Conselho Federal de Psicologia (CFP), em sua página no instagram, chama atenção para a sobrecarga no exercício da maternidade nesta pandemia, assim como para os impactos na saúde mental das mulheres. Acrescenta, ao final, que, em meio a tantos e severos lutos, solidariza-se com todas as mães que perderam seus filhos e filhas para a Covid-19, que perderam e perdem seus filhos e filhas para a violência de Estado a exemplo do que aconteceu em Jacarezinho.
Elizabeth Badinter, em sua obra “Um amor conquistado: o mito do amor materno” afirma que, o amor materno é apenas um sentimento humano e, como todo sentimento, é incerto, frágil e imperfeito. Contrariamente, aos preconceitos, ele talvez não esteja profundamente inscrito na natureza feminina.
Já um famoso provérbio africano afirma que \”É preciso uma aldeia inteira para criar um filho”. Dessa forma, nunca estamos sozinhos na hora de cuidar e educar uma criança.
Não existe um período histórico, em que essas tarefas não se configuram como um desafio. Nesse contexto, a parentalidade vai muito além do famoso trio: papai, mamãe e filhinho. Ela implica também nas condições sociais, no discurso de uma época, nas crenças, nas condições materiais, políticas públicas, ou seja, a parentalidade é uma construção social, que vai ao encontro da publicação do CFP.
O cuidado com a infância não é uma questão só das mães, segundo Vera Iaconelli, mas de todos: empresas, Estado e sociedade civil, pois “para criar esta geração, estamos triturando as mulheres, elas têm sido erroneamente consideradas as únicas responsáveis pela nova geração”
Atualmente, mães e pais estão vivendo uma parentalidade precarizada, pois há uma proliferação de receitas e fórmulas dos mais diversos especialistas para que esses pais deem certo, como se apenas seus “bons comportamentos” fossem suficientes para criar “filhos de sucesso”. Nesse cenário, instala-se uma culpa generalizada. Ser pai e mãe é quase sinônimo de culpa, pois o sentimento de culpa é baseado em ideais inalcançáveis. Há uma fantasia que dá para ser pai ou mãe de alguém sem cometer falhas, sem errar, mas nós somos humanos.
Para Roudinesco, somos livres pela fala e nosso destino não se restringe à nossa biologia. A psicanalista afirma, ainda, que a psicanálise deverá conservar seu lugar ao lado das demais ciências para lutar contra as pretensões obscurantistas que almejam reduzir o pensamento a um neurônio ou confundir o desejo com uma secreção química.
A psicanálise é, portanto, um poderoso dispositivo de emancipação subjetiva. Um de seus efeitos pode ser a emancipação desses pais e mães, a partir de questionamentos acerca de certos ideais e normas sociais, ajudando-os a construir sua própria forma de lidar com a vida e com seus filhos.
É importante que possamos pensar, como sociedade, em dois eixos, como enfatiza Vera Iaconelli: primeiro: a economia do cuidado, que passa por licenças para os pais cuidarem dos bebês, creches para todas as crianças e salários equalizados entre os gêneros; e segundo: o amor às crianças dividido entre pais, famílias e sociedade. É urgente uma mudança de mentalidade que compartilhe e redistribua a responsabilidade que é cuidar de uma criança.
