Estarrecida, em casa, pois chegamos, no Brasil, à triste e revoltante marca de 500 mil vidas perdidas. Aqui em Porto Alegre, de onde escrevo, 5 mil vidas perdidas. Meus compatriotas tiveram suas vidas interrompidas por uma doença que já tem vacina num país que tem uma estrutura de saúde pública e de vacinação de dar inveja a outras nações, o mesmo já não se pode falar do nosso presidente e seu (des)governo.
Houve manifestações pelo país no sábado, uma manifestação pela democracia. Foram muitas e urgentes as reivindicações: Fora Bolsonaro, vacina para todos, contra cortes na educação, contra a violência, contra o racismo e a homofobia. Uma manifestação pela democracia.
Nesse fim de semana também trabalhei preparando uma aula para uma querida colega numa disciplina de Psicologia e Desenvolvimento cujo o objetivo será discutir sobre a clínica psicanalítica e a adolescência.
A juventude sempre existiu, mas na modalidade em que a denominamos e compreendemos hoje, adolescência, é um produto do século XX. Além de inventarmos essa fase da vida, nós a idealizamos, convictos de que seria, para Mario e Diana Corso, o tempo de ouro da existência.
Na adolescência, o desafio é como se tornar uma versão original a partir daquilo que nos foi legado; como sair do jugo e influência da família e inserir-se de forma saudável em sua geração. Falando em desafio, vivenciar esse momento da tem sido um enorme desafio não só para os adolescentes, mas para pais, educadores e por que não, para nós psicoterapeutas.
Psicanaliticamente falando, o que o adolescente mais deseja é ser tratado como um adulto, sem ter que agir como um e o que os pais mais querem é que o adolescente aja como adulto, sem perder a influência sobre ele. Nesse mais de um ano e meio em casa, têm acontecido desde brigas homéricas até encontros potentes entre pais e filhos
Para Iaconelli, tentar agradar quem precisa te superar é uma tarefa inglória. Exigir respeito e educação, por outro lado, é obrigatório. Fica mais fácil se entendermos que nem toda raiva é mérito de quem somos, mas da posição que ocupamos.
Uma valiosa recomendação está em “fazer as pazes”, elaborar a forma como nossa adolescência transcorreu. Talvez, assim, seja um pouco mais fácil suportar ver filhos, alunos e pacientes lidando a seu próprio modo com as questões da forma atual de ser jovem. Afinal, todos os adultos já foram adolescentes, embora com variações de costumes e intensidades.
Em um recorte de classes, podemos dizer que os mais pobres sofrem hoje com a dificuldade de construir sonhos tangíveis, enquanto os que têm mais recursos sofrem com o pesadelo de ter sobre suas costas sonhos demais para realizar. Sobre isso, vale a pena assistir ao seriado brasileiro “segunda chamada”.
A sociedade cobra saber quem são os culpados pelo sofrimento adolescente para eximir a culpa, o que demonstra dificuldade de se pensar e mudar. Procurar um culpado é, em geral, contraproducente quando se quer abordar e lidar com o sofrimento dos adolescentes. No entanto, ao contrário, interrogar-se sobre a responsabilidade ou sobre implicações é potente. Como diz Dunker, o sofrimento é maltratado quando recusamos a ele três condições: a palavra ou a escuta, o compartilhamento e o reconhecimento.
O sofrimento em si não muda as pessoas, não torna ninguém melhor nem pior. Tudo depende do que fazemos com o sofrimento, começando por identificar como ele é produzido e interpretado. Somos seres culturais, o sofrimento é um ato político e não apenas individual. Somos, portanto, responsáveis, sim, por essa geração. Não proteger a infância e a adolescência e não se indignar com esse (des)governo é condenar a democracia e o futuro.
