Um pedacinho de gente

A chegada de um bebê é sempre uma aventura para toda a família. Toda semana desde que minha sobrinha e afilhada nasceu, há exatos 19 dias, meu whatsapp se transformou num verdadeiro álbum de fotos, nas quais minha família, em função da pandemia, vai se esforçando para me manter informada sobre aquele pedacinho lindo de gente. Confesso que todos os membros da minha família têm sido excelentes fotógrafos.

Para a psicanálise, a chegada de um bebê é compreendida como uma situação traumática, pois a chegada e a entrada de um novo membro na família é potencialmente desorganizadora, podendo deixar pais, mães e demais membros assustados e com dificuldades de produzir um sentido para tamanha mudança. Geralmente, a preocupação mais explícita é a financeira: “Será que conseguirei pagar os estudos? E os remédios? E roupas?”, no entanto, há preocupações implícitas, veladas.

O nascimento de um bebê faz com que pais e mães revisitem seu passado, no qual há traumas, dores e situações nem sempre elaboradas, como, lindamente, nos mostra o seriado This is us, por exemplo. Como bem nos lembra Iaconelli, foi-se o tempo no qual a família era confundida com papai, mamãe e filhinho. Desde Lacan, o Édipo deixou de ser o mito heteronormativo que convinha à sociedade vitoriana e se tornou uma estrutura vazia, cujos elementos podem variar, desde que suas funções sejam mantidas. 

Funções, nesse contexto, tampouco dizem respeito a quem leva ao médico ou coloca para dormir, mas àquelas fundamentais para que um novo sujeito encontre sua posição ética no mundo. Para resumir: papai-papai, mamãe-mamãe, pai e mãe solteiros e cuidadores estão valendo. 

Nem sempre há desejo de filhos e nem sempre o desejo de um filho coincide com aquela gravidez, momento de vida ou idealização. A cada nova etapa somos apresentados a um sujeito diferente: bebê, criança, pré-adolescente, adolescente, jovem adulto, adulto, velho. E a cada nova etapa temos que nos transformar em um novo pai e em uma nova mãe. A cada nova fase nos deparamos com um estranho que acreditávamos conhecer desde sempre, mas não.

É importante renunciarmos ao idílio tão veiculado pelas mídias com a chegada de um bebê. Há delícias, sim, e muitas, no entanto, há também dores que precisam ser ouvidas. Afinal, os filhos vem para desbancar nosso narcisismo.

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