De quatro em quatro em anos, com exceção desse ano em Tóquio por causa da pandemia, o mundo inteiro assiste às olimpíadas, o maior evento esportivo do mundo. A prática esportiva é uma forma de expressão, é um meio de socialização de desenvolvimento de consciência corporal, de saúde, de educação, de respeito, de empatia e de também e, não apenas, competição.
O esporte teve ao longo da história funções ligadas aos interesses políticos e estratégicos das instituições sociais e dos Estados. Na antiguidade, o esporte, de forma geral, não tinha uma finalidade em si mesmo. Era sempre um elemento interno de instituições militares, educacionais ou ainda religiosas.
Na Grécia Antiga, as atividades atléticas e ginásticas faziam parte do ideal grego de formação integral do homem. Além de possuir valores morais e pedagógicos, o esporte era utilizado, na época escolar, como preparação militar para os jovens. Os jogos gregos tinham caráter predominantemente religioso, através dos quais eram homenageados os deuses do Olimpo. Os Jogos Olímpicos significavam o intercâmbio cultural entre as cidades-estado gregas e eram realizados para celebrar a paz entre os povos gregos
Na época do Império Romano, os Jogos Públicos foram utilizados para alienar o povo, evitando insurreições populares, na chamada “Política do Pão e Circo”. Na Europa, entre os séculos XVIII e XIX, surgiu o movimento ginástico, que visava melhorar a saúde das pessoas. No entanto, foi utilizado para o treinamento militar, atendendo aos interesses nacionalistas da época.
A regulamentação de jogos populares na Inglaterra fez surgir, em meados do século XIX, o Esporte Moderno que, impregnado de valores da Revolução Industrial, foi utilizado pela burguesia industrial para disciplinar os operários. Os Jogos Olímpicos da era moderna propagaram o esporte por todo o mundo. Além disso, a participação nos jogos agregava o sentimento de representação nacional e muitos países utilizaram este valor para angariar prestígio político internacional.
No mundo contemporâneo, o esporte passou a compor as estruturas neoliberais da economia de mercado, transformando-se em uma grande instituição financeira que representa os interesses das corporações transnacionais, as quais ditam as regras no mercado mundial. O volume de capital envolvido nas transações de patrocínio de eventos, de equipes e de venda de direitos de transmissão gera interesses que ultrapassam as necessidades da prática esportiva, por exemplo.
É importante, nesse contexto, que possamos diferenciar o esporte como fenômeno social plural e o esporte de alto rendimento. O esporte é um direito de todos, é um direito constitucional, no entanto, poucos tornam-se atletas olímpicos. Tornar-se atleta olímpico exige o esforço de uma vida inteira. Trata-se de uma vida de privações, dores crônicas, exigências e solidão, como nos lembra Iaconelli.
Assim, exigir desempenho e resultado satisfatório é perverso e injusto quando o Estado falha muito ao cuidar de seus cidadãos e atletas, pois muitos são os fatores envolvidos para que um atleta suba ao pódio.
A discussão sobre os esportes não pode acabar com as Olimpíadas. Compreender o esporte como política pública, seu investimento como prioridade e as medalhas como consequência me parecem ser um bom ponto de partida, pois não há pódio olímpico sem infraestrutura, sem política pública, sem investimento em todas as modalidades esportivas.
