A rivalidade fraterna é bíblica, remonta a Caim e Abel, primeira dupla de irmãos de que se tem notícia. Segundo a Bíblia, eles eram filhos de Adão e Eva. Caim era lavrador e Abel, pastor. Ambos faziam ofertas a Deus, que sempre mostrava maior apreço por Abel (segundo consta, dava-lhe suas melhores ovelhas, diferentemente do irmão, a quem lhe oferecia as sobras). Enciumado por não ser o preferido de Deus, Caim matou o irmão.
Clinicamente, percebo que muitos pais se esforçam-se para garantir que nenhum filho sinta-se lesado ou preterido e, para tal, fazem verdadeiras maratonas para oferecer-lhes tudo igual, mas sempre falham. Outro dia, uma paciente trouxe em sessão que na sua família é assim: o que a irmã ganha de outra pessoa, o pai dá igual para ela e vice-versa. Muitos pais caem nessa armadilha, acreditando que proporcionar as mesmas coisas materiais amenizará ou solucionará a angústia, no entanto, algo escapa à compreensão: os filhos querem ser únicos e não ser ou ter tudo igual ao irmão.
O psicanalista Alfred Adler foi um dos primeiros a se interessar pela temática das relações fraternas. Posteriormente, Lacan, em seu livro Complexos Familiares, aborda o complexo de intrusão, o complexo fraterno e que diz respeito à ideia da possibilidade de irmãos ou de ter havido irmãos. Isso é de suma importância no que diz respeito à constituição psíquica, pois a fratria cria um novo tipo de identificação para o sujeito: a identificação com o semelhante, a identificação horizontal, para além da identificação parental, que é marcada pela verticalidade e pela diferença de poder.
Na identificação horizontal, o outro é como eu, porém distinto. Isso gera uma série de efeitos na nossa relação com nossa própria imagem e no processo de construção do sujeito: concorrência, rivalidade, competição, inveja, oposição. Sendo assim, a rivalidade entre irmãos é fundamental em nossa constituição que mesmo filhos únicos terão que encontrar amigos com quem viver essa experiência. Competimos, compartilhamos e solidarizamos e, para o psicanalista inglês Donald Winnicott, a partir desses encontros criamos as condições para vir a ter relações fraternas ao longo da vida, afinal, a relação entre irmãos é a matriz do sentimento social chamado solidariedade, bem como da noção de alteridade.
Irmãos são fonte garantida de angústia, oportunidade singular para se reconhecer parte do mundo, convite para a competição e para o cuidado. Para Iaconelli, o paradoxo é que nem todo irmão vira amigo, mas os grandes amigos são tidos como irmãos. Seja porque o que veio depois nos mostra que fomos insuficientes, seja porque o que veio antes nos faz sentir sempre em falta, irmãos existem para nos ensinar que não somos a \”última bolacha do pacote\”. Pena que nem todo mundo aproveita a lição.
