O roubo do miojo e a epidemia da fome no Brasil

Escrevo essa coluna no dia mundial da alimentação. A data foi escolhida para lembrar a criação da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), em 1945, com o intuito de desenvolver uma reflexão a respeito do quadro atual da alimentação mundial. De acordo com a própria FAO, o objetivo da organização é alcançar a segurança alimentar de todos e garantir que as pessoas tenham acesso regular a alimentos de alta qualidade suficientes para levar-se uma vida ativa e saudável.

Aqui no Brasil, os dados da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Penssan), revelam que a fome voltou a atingir cerca de 20 milhões de pessoas. Mais 50 milhões de pessoas se alimentam mal, na condição de insegurança alimentar. 

“Meu sonho é ser gente”, disse a mulher de 41 anos, em situação de rua, e mãe de cinco filhos, que passou duas semanas presa, acusada de furtar miojo, refrigerante e refresco em pó de um supermercado paulistano. Total das mercadorias: R$ 21,69. Revoltante situação criada por essa justiça seletiva, nossa velha, infelizmente, conhecida. Crueldade que escancara as desigualdades sociais do nosso país. 

O representante do Ministério Público, órgão cujo dever, perante o Judiciário, é atuar nas áreas em que cidadãs e cidadãos têm seus direitos individuais indisponíveis de alguma forma, como por exemplo: o direito à vida, o direito à saúde, o direito à educação, o direito à liberdade, pediu o agravamento da prisão, por ser ato reincidente. Reincidente, \”doutor\’\’, como a fome de cada dia dessa mãe e de seus filhos e de milhares de brasileiros.

Nas palavras de Jânio de Freitas em sua coluna na Folha: “só na tão cantada originalidade brasileira uma magistrada, do alto dos seus códigos, é capaz de ver em uma mulher, mãe paupérrima, as condições para pôr em risco a ordem pública, a ponto de agravar a instabilidade criada por generais, um celerado e seu bando de aproveitadores”. 

“É interessante o fato de como rico acha que fome não justifica o furto, mas o imposto justifica a sonegação!” dizia num post no meu feed do instagram, triste exclamação que me segue ecoando. Antes e além da pandemia, como pode o Brasil, segundo maior exportador de alimentos do mundo, continuar a ver crescer a quantidade de famílias em situação de fome? Nossa fome não é fruto da escassez de recursos naturais nem do excesso populacional. É resultado de um modelo monocultor e de extrema concentração de renda e, por isso mesmo, excludente. Que o Dia Mundial da Alimentação nos ajude a seguir refletindo sobre essa tragédia social para que possamos fazer melhores escolhas políticas. 

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