São muitos os efeitos colaterais do isolamento social. Longe das pessoas, mas grudados no celular, nos distanciamos das pessoas de carne e osso, mas nos aproximamos do treino e do almoço delas, sabemos o que compraram, o livro que leram e o curso que estão fazendo.
Nos tornamos produtores e editores do nosso cotidiano e da nossa imagem nas redes sociais, muitas vezes, sem nos darmos conta. O impacto disso pode ser perverso. É como se cada um de nós tivesse a capacidade de um designer que cria capas de revistas, eliminando e corrigindo o que se entende por “imperfeições” físicas, aumentando e diminuindo proporções e apagando manchas na pele.
Contemporaneamente, as pessoas criam uma espécie de vida virtual paralela que, muitas vezes, diverge, e muito, da vida real. A selfie precisa retratar, a custo de muitos filtros, sempre a melhor versão de si, uma versão jovem, magra, bem sucedida e feliz. Nesse contexto, tudo é vendido como possível de ser alcançado. A sobrevivência no mundo virtual depende da sua própria habilidade espetacular de revelar que a sua vida é repleta de resultados performáticos.
Debord afirma que todos querem ter suas vidas espetacularizadas para se sentirem especiais e desejados, além de se cumprirem os padrões determinados por uma sociedade centrada no desempenho da alta performance, na qual a aparência se torna primordial, a primazia da felicidade.
Agora soma-se a tudo isso, uma novidade estarrecedora e perversa: A partir do dia 1° de janeiro de 2022, a velhice será tratada como doença pela Classificação Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID) da OMS (Organização Mundial da Saúde). Então, pensemos: se a velhice for tratada como doença, poderá ser erradicada, tornando a imortalidade o novo produto na prateleira capitalista, juntamente com um rol gigantesco de procedimentos estéticos.
Se o corpo é tão cultuado, ele é igualmente banalizado e é, muitas vezes, nosso maior algoz. É no corpo que o mal-estar vem se expressando, substituindo cada vez mais as palavras. Por isso, é tão importante pensar criticamente sem demonizar as redes sociais, principalmente quando pensamos no público adolescente que consome avidamente o conteúdo das redes sociais e de muitos influenciadores, sem notar que grande parte dele está repleto de filtros e anúncios de produtos e cosméticos “milagrosos”.
Assim, o incentivo à leitura reflexiva de imagens e o questionamento crítico sobre peças publicitárias e o papel dos influenciadores tornem-se atitudes tão automatizadas quanto curtir, comentar e compartilhar fotos, memes e vídeos. E que o olhar para a velhice seja compreendido como parte importante da vida e não como fracasso ou defeito.
