Dia 27 de agosto comemora-se o dia do psicólogo. Nesse dia, recebi algumas mensagens de familiares, colegas e também de alguns pacientes com relação à data. Fiquei pensativa e reflexiva acerca da minha trajetória profissional e também muito reflexiva com relação à profissão.
A pandemia contribuiu para que muitos profissionais, incluindo os psicólogos, começassem a utilizar mais ativamente as redes sociais para a divulgação de seu trabalho. Eu, por exemplo, me aventurei a criar um perfil profissional no instagram para divulgar meus textos, que fazem parte de um projeto antigo, até então engavetado, de escrever sobre as questões contemporâneas que me tocam.
No referido dia 27, não foram poucos os posts e stories, em meu feed, de profissionais psicólogos agradecendo aos pacientes pelas mensagens na data, alguns, agradeceram aos pacientes pelos aprendizados. Então, me peguei pensando sobre o questionamento de Dunker: “Como você está usando as redes sociais? Para satisfazer o seu desejo de reconhecimento ou para explorar as formas de reconhecer os seus desejos?”
As redes sociais foram criadas com a estrita finalidade de fazer seus usuários consumirem, enquanto os entretêm, viciando-os. Para Iaconelli, alguns recursos trazidos por essas tecnologias, no entanto, não nos permitem demonizá-las. Movimentos da sociedade civil pelos direitos humanos, visibilização de sujeitos e comunidades segregadas, democratização do acesso à informação, são algumas das qualidades inegáveis dessa invenção, caminho sem volta para a humanidade. A questão do mundo virtual é que sua enorme potência pode ser usada em qualquer direção.
Nesse sentido, é fundamental fazermos um exame, uma análise do nosso uso, do uso que nós psicólogos fazemos das redes sociais, incluindo nossa compreensão do significado das redes sociais em nossa prática clínica e na relação com nossos pacientes. Sabemos desde Freud, que a transferência é uma ferramenta importantíssima, pois é a repetição, uma reatualização da história dos nossos amores com os nossos novos encontros.
Na transferência, estamos repetindo demandas, afetos, identificações que formavam a nossa experiência de amor até então com alguém, ou seja, na transferência, o paciente repete suas neuroses. Nesse contexto, há também a contratransferência, que é a reação do analista ao que seu paciente fala ou traz em sessão ou, contemporaneamente, fora dela.
As redes sociais trazem uma nova forma de linguagem, não só no que diz respeito à uma comunicação mais reduzida, com o uso de palavras abreviadas e emoticons, mas também pela velocidade das interlocuções. Se, segundo Lacan, o inconsciente está estruturado na linguagem, essa nova forma de comunicar é também um novo jeito de acessar este saber que não se sabe.
Para Merel, apesar do barulho tão característico dessas redes, o único som que cada um escuta é o eco das suas próprias vozes. Post não tem tom. Post não tem voz. No ambiente digital, o olhar ganhou o espaço do ouvido, estamos fazendo de tudo para sermos notados.
Para a autora, o smartphone funciona como um espelho digital para a nova versão do estádio do espelho. Ele abre um espaço narcísico, uma esfera do imaginário na qual o sujeito se aprisiona. No feed, é mais fácil se juntar à massa do que assumir a sua própria singularidade. As redes sociais são, hoje, mais um dispositivo de eco do que de subjetividade.
Enquanto a busca for pelas vias do Instagram, número de visualizações e likes e não pela da subjetividade, continuaremos navegando pelo nosso desejo de reconhecimento e não pelo reconhecimento dos nossos desejos mais profundos. E isso, nos inclui. Precisamos desromantizar nosso trabalho, há que se investir no tripé sempre: análise/psicoterapia pessoal, estudo e supervisão. Nós psicólogos não podemos ser ingênuos no uso das redes sociais, precisamos ser responsáveis eticamente pelos nossos pacientes e profissão para não fazermos eco e para que possamos efetivamente escutar o outro.
