Era só uma brincadeira

“Vocês gostam é de bem duro, né? Comprido também fica legal, né?” diz Victor Sorrentino a uma vendedora, de uma loja de produtos turísticos no Egito, que lhe mostrava um papiro. A vendedora, que não entende direito o que foi dito, responde “sim”, enquanto ele e os amigos riem. Victor Sorrentino compartilha o vídeo “engraçado” em seu instagram com seus quase um milhão de seguidores. 

No dia 30 de maio, o médico gaúcho Victor Sorrentino foi detido no Egito após o vídeo viralizar na internet, chegando às autoridades egípcias. 

Recentemente, Victor grava um vídeo ao lado da vítima, pedindo desculpas: \”Meu nome é Victor Sorrentino, eu estou gravando esse vídeo para pedir desculpas por ter errado em gravar um vídeo sem autorização da senhorita e falando palavras feias. Quero deixar claro que tenho o maior respeito pelo povo egípcio em geral, especialmente as mulheres egípcias\”, Eu peço as minhas mais sinceras desculpas a senhorita Him\”. Posteriormente a família de Victor também se manifesta com um pedido oficial de desculpa: \”Nós, Família Victor Sorrentino e em nome de Victor apresentamos um pedido oficial de desculpas à vítima, sua família e todos os que tocaram no assunto. A todo o querido povo egípcio e todos os funcionários do Estado do Egito. Nossos mais sinceros sentimentos e empenho na reparação de todos os danos materiais e morais. Solicitamos o recebimento de nossas desculpas\”.

Ao ler esses pedidos de desculpa, fica evidente a total falta de reconhecimento, de Victor e de sua família, das consequências e das implicações de suas “palavras feias”. É urgente que Victor compreenda que, o que ele chama de “piada” e “palavras feias”, na verdade tem outro nome: assédio.

Victor, infelizmente, não é um caso isolado. Homens como Victor fazem parte de um enorme contingente que adora fazer “piada sexual” com as mulheres. Para eles, isso é fonte de diversão, no entanto, esse tipo de brincadeira não é só sem graça, é assédio. 

Desde quando surgiu, o conceito de feminismo foi deturpado por uma série de preconceitos e aspectos negativos que não correspondem ao que ele realmente é. O objetivo do movimento feminista é alcançar uma sociedade em que homens e mulheres tenham direitos iguais, ou seja, sem hierarquia de gênero. O feminismo é necessário, não apenas para que as mulheres tenham direitos iguais, mas também para que possam ser respeitadas em sua humanidade, como explica Djamila Ribeiro. 

A história da desqualificação da mulher e da misoginia passa a ser entendida também como a história da transmissão cultural. Lacan, nas Diretrizes para um congresso sobre a sexualidade feminina, afirma que os analistas também estão expostos aos discursos de sua época e, como quaisquer outros, a um preconceito relativo ao gênero.

Sobre os discursos da nossa época, um dado interessante é que o médico gaúcho é conhecido também por ser apoiador do Presidente Jair Bolsonaro e defensor do tratamento precoce para covid-19. Vamos lá: um país que tem um presidente da República que chama o coronavírus de \”gripezinha\’\’ e faz piada sobre tudo é uma barbárie. 

Os posicionamentos de um chefe de nação, por mais absurdos que sejam, têm forte e grande significado forte, pois reverberam, gerando comportamentos irresponsáveis e contribuindo com comportamentos irresponsáveis. 

O governo federal rejeitou três ofertas da Coronavac, ignorou propostas da Pfizer, incentivou/incentiva tratamentos sem eficácia comprovada, tratou/trata as instituições científicas desrespeitosamente, zomba e faz piada sobre outros países e que definitivamente não se preocupa com o seu povo. E Victor, o que tem a ver com isso? Ele, assim como muitos, se identifica com essa forma de ser/governar e assim como o presidente acha que pode sair por aí fazendo “piada”. 

Para fazer a psicanálise existir, Collete Soler, afirma que não há como o psicanalista, com sua psicanálise, se subtrair, se colocar como exceção e se “extraterritorializar” às questões dos discursos contemporâneos. Nesse sentido, com esses movimentos que explodem no campo social, os analistas são convidados constantemente a contribuir com o debate. A psicanálise precisa fazer o exercício de deixar o lugar comum de analisar, interpretar e falar sobre algo, para interrogar a si mesma. Maria Rita Kehl acrescenta que a psicanálise nasceu para dar voz ao emergente e não para corroborar com a tradição”. 

Portanto, é urgente a atenção para a normalização ou até para a normatização, já que, em muitos casos, o próprio estado, como infelizmente temos experienciado, é o agente da crueldade, do sofrimento das mulheres diante das mais diversas situações de misoginia.

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