Fui positivamente surpreendida ao ler sobre a entrega da Fonte Talavera de la Reina restaurada em frente ao Paço Municipal que será realizada no dia 24/06. A reportagem também afirmava que essa entrega faz parte de uma força-tarefa que tem como missão melhorar o aspecto do Centro Histórico de Porto Alegre em um prazo de 120 dias.
A cidade moderna resulta, historicamente, do desenvolvimento do processo de industrialização: mudanças tecnológicas na indústria, nos transportes, nas comunicações e nas técnicas construtivas, são os requisitos fundamentais ao crescimento urbano, mas que tem tido sérias dificuldades em contemplar o bem-estar humano. Temos assistido a um imenso fracasso no que diz respeito à mobilidade urbana e ao cuidado com as nossas cidades.
Um imenso fracasso que tem efeitos na forma como nos relacionamos e nos movemos pelas cidades. Vivemos, infelizmente, graves dificuldades no que diz respeito às condições de inclusão dos sujeitos, na falta de garantias de comportar a diversidade, nas dificuldades de mobilidade e de moradia, na existência de fronteiras que impedem/dificultam a circulação, no crescente investimento econômico no espaço privado em detrimento do espaço público. Isso tem como resultado, graves sintomas sociais que têm nos custado a saúde física e psíquica.
É interessante notar que Freud usou a imagem de uma cidade como a metáfora do inconsciente. Em “O mal-estar na civilização”, sustentou que “na vida mental nada que tenha sido criado pode perecer”. Se desejássemos imaginar o inconsciente poderíamos fazê-lo visualizando Roma, de tal forma que se pudesse imaginar todos os seus períodos ao mesmo tempo – a Roma Quadranta, a Septimontium, o período do muro Sérvio, e as muitas outras Romas dos imperadores que se seguiram. “Onde agora fica o Coliseu” escreve Freud, “poderíamos simultaneamente admirar a desaparecida Casa Dourada de Nero. Freud acaba abandonando esta metáfora porque, como ao longo do tempo construções podem ser demolidas e outras erigidas em seu lugar, uma cidade não seria um exemplo adequado para falar daquilo que fica preservado atemporalmente no inconsciente.
Para Bollas, se Freud tivesse sustentado esta metáfora um pouco mais, talvez sua dialética poderia ter funcionado. O esquecimento é, de fato, parte da vida inconsciente do homem. Tanto que, dependendo de como se deseja olhar Roma, podemos ver tanto o que foi preservado quanto o que foi destruído. Para os arquitetos e psicanalistas, assim como para as cidades, destruição e criação estão intimamente ligadas.
Lefebvre nos ensina que os cidadãos produzem espaços, inventam lugares e, consequentemente constroem uma arquitetura. A arquitetura configura-se como linguagem na cidade, uma espécie de materialização do inconsciente. Uma cidade não é feita apenas do que a arquitetura representa, mas dos espaços que as pessoas inventam a partir desta arquitetura.
As cidades são, portanto, espaços dentro de outros espaços, mas não só. São constituídas por cultura, história, memória e trauma. São marcadas por corpos que transitam e expressam sua subjetividade.
Para Kehl, “cidade com desigualdade é um inferno”. A desigualdade social é um sintoma, que faz do mesmo território um espaço distinto para as diferentes classes sociais, por exemplo. As contradições dentro de uma mesma cidade levam ao sentimento de desamparo, mal-estar e sofrimento. Nesse sentido, escutar a cidade significa ler o que aparece como sintoma social nesse lugar, pois a psicanálise ultrapassa as paredes do consultório.
Se para Rajchman, “ser livre é ser capaz de questionar a política, de questionar a maneira como o poder é exercido. Esse questionamento implica nosso ethos, nossas maneiras de ser ou de tornarmos quem somos. A liberdade é, pois, uma questão ética”, para Safatle “a psicanálise pode ser considerada uma verdadeira teoria política, na medida em que a instauração da “vida psíquica” está associada à adesão a modalidades de “sujeição social”, ou seja, a maneiras singulares de sofrimento – de mal-estar, de desconforto, como diria Freud, na cultura.
Espero e torço fortemente para que essa força-tarefa seja um primeiro passo e não leve em consideração apenas a revitalização centro da cidade de Porto Alegre, mas também a efetivação de políticas públicas no combate às desigualdades sociais. Afinal, os problemas de Porto Alegre não são os mesmos para todos os porto-alegrenses e vão além de questões estéticas.
