Logo na abertura do texto “Luto e melancolia”, Freud afirma uma coisa simples e, de certa forma, estranha para a psicanálise. Ele afirma que \”o luto é um afeto normal”.
A compreensão freudiana diz respeito a um processo no qual “o luto leva o eu a renunciar ao objeto, declarando-o morto e oferecendo-lhe como prêmio permanecer vivo”. Para Freud, a possibilidade de viver já seria uma espécie de benefício secundário.
O luto é um modo de subjetivação, é um modo de relação com o outro permanente. Então, nós estamos permanentemente em luto, porque permanentemente temos que nos haver com a perda de ideais, ideias abstratas e pessoas, por exemplo. A compreensão freudiana do luto afirma que “o luto leva o eu a renunciar ao objeto, declarando-o morto e oferecendo-lhe como prêmio permanecer vivo”.
Assim, quando estamos enlutados, sofremos um abalo egoico, somos tomados por uma sensação de impotência diante desse mal-estar. O luto faz resistência estrutural à lógica da produção, à lógica do apressamento e ele “passa” ou é elaborado quando a dor dá lugar à saudade. \”Fazer o luto\” não significa esquecer quem e/ou que perdemos, ao contrário, para tal, é necessário se lembrar.
A pandemia pelo mundo, e em especial no Brasil, parece não produzir esse abalo egoico. Num luto “normal” espera-se que haja uma “elaboração” da perda do objeto, no entanto, a atual banalização estatística, a normalização das mortes acabam, bem como a necropolítica e o fascismo fomentados por nossas lideranças, induz o eu a uma forte dissociação como defesa para não desmoronar de vez. As notícias, que não cessam de apresentar números, que talvez já não assustem um espectador que tende a ficar cada vez mais indiferente.
Entre 1915 e 1916, Freud estava bastante preocupado com a situação europeia, a guerra, declara ele, no texto Sobre a Transitoriedade, “destroçou nosso orgulho pelas realizações de nossa civilização, nossa admiração por numerosos filósofos e artistas, e nossas esperanças quanto a um triunfo final sobre as divergências entre as nações e as raças. Maculou a elevada imparcialidade da nossa ciência, revelou nossos instintos em toda a sua nudez e soltou de dentro de nós os maus espíritos que julgávamos terem sido domados para sempre, por séculos de ininterrupta educação pelas mais nobres mentes. Amesquinhou mais uma vez nosso país e tornou o resto do mundo bastante remoto. Roubou-nos do muito que amáramos e mostrou-nos quão efêmeras eram inúmeras coisas que considerávamos imutáveis”.
Nesse clima de intenso desolamento, não vejo alternativa que não seja nos engajarmos num manejo criativo das dificuldades de metabolização psíquica. Me parece que numa sociedade pandêmica nada é mais essencial do que a arte, que parece nascer em razão do desamparo ou como resistência direta contra a morte.
* Gostaria de fazer um adendo, pois, recentemente, no dia 30 de março, fui tomada pela tristeza ao ler a notícia de que o psicanalista Contardo Calligaris falecera. Meu primeiro contato com Calligaris foi na faculdade ao ler “Cartas a um Jovem terapeuta”. Posteriormente, em 2011 tive a oportunidade de escutá-lo num evento no Studio Clio, logo que cheguei a Porto Alegre e depois na livraria Cultura no lançamento de seu livro “A mulher de vermelho e branco”. Passei a admirá-lo e lê-lo. Sua notoriedade se expressa em toda a sua obra, um psicanalista implicado com as questões sociais.
Para Calligaris, o luto nunca é esquecimento. Num de seus textos para a Folha, onde foi colunista por muitos anos, escreveu que “lembrar de quem morreu é um jeito de manter o morto em vida, dentro de nós. Mais adiante no texto ele afirma “uma outra coisa com a qual quase todos os autores sérios concordam é a recomendação que o luto se expresse numa atividade concreta”.
Acho que sim, o que nos resta é seguir aproveitando a tua obra.
