Estamos todos no mesmo barco?

Não há como negar que a pandemia covid 19 que assola o mundo todo tem muitos impactos. Milhares de pessoas enlutadas pela perda de parentes e amigos, pessoas com medo e receosas com relação às mudanças que o isolamento trouxe para as suas vidas e também inseguras e, por que não, apavoradas com relação às lideranças governamentais e suas formas de conduzir a sociedade no manejo e enfrentamento dessa crise global.

Ao longo de um ano de isolamento e quatro ministros da saúde, passamos por muitas “etapas”. No início, a ideia de que ficaríamos isolados por um mês ou dois e, logo, a pandemia “passaria” e que ficaria “tudo bem”, de utilizarmos o tempo e a oportunidade de ficar em casa, obviamente para quem pôde, para estudar, fazer cursos, se exercitar e produzir numa lógica capitalista perversa de que na pandemia seria possível realizar muitos planos que até então, por falta de tempo, não haviam sido realizados. 

Num país como o nosso, as desigualdades sociais ficaram ainda mais evidentes, impactando fortemente quem já estava em situação de vulnerabilidade.O acesso à educação, por exemplo, de muitas crianças e adolescentes foi interrompido, escancarando ainda mais as desigualdades sociais, gerando prejuízos não só no processo de aprendizagem, mas de convívio social e acesso à alimentação e proteção.

Há, sim, uma onda negacionista e a percepção de estar fora de perigo que abrange uma parte considerável da elite brasileira, tendo como base uma crença dessas pessoas de que elas são excepcionais, fora de grupos de riscos, já que são privilegiados. Em seu livro Mal-estar, sofrimento e sintoma: Uma psicopatologia do Brasil entre muros, Christian Dunker explica como, há anos, as classes média e alta lidam com o conflito: com a construção de um muro e a designação de seus síndicos, responsáveis por manter em dia seu status quo.

A vida privada dos condomínios é também uma janela que expõe abismos sociais, em geral, quanto maior a renda, maior a chance de realizar trabalho remoto. Em meio à pandemia do coronavírus, os condomínios, em geral, mudaram regras de convivência, com restrições de acesso a visitas e entregadores. Áreas de lazer e academias de uso coletivo também foram interditadas, no entanto, muitos embates começaram a ser travados entre vizinhos para afrouxar as medidas, o que pode colocar em risco moradores, mas também funcionários que seguem trabalhando.

A pandemia escancarou, portanto, a necropolítica à brasileira, ou seja, a ideia que já existia, de que existem vidas \”matáveis\’\’ e outras não. A necropolítica aqui como conceito desenvolvido em 2003 pelo intelectual camaronense Achille Mbembe, que questiona os limites da soberania do Estado na escolha de quem deve viver e quem deve morrer.

A pandemia e o medo nos aproximou em parte, mas não a ponto de dissolver as diferenças. Em minha prática clínica, ouvi algumas vezes, os pacientes comentando algumas situações cotidianas e afirmando: “No fim, estamos todos no mesmo barco.” Tal afirmação é uma falácia. Faz mais sentido pensar que estamos todos no mesmo mar. Alguns com condições de superar a tempestade em luxuosas cabines de um navio cruzeiro, outros em barcos a remo, outros esbarrando-se e acotovelando-se em botes apertados e muitos afogando-se no mar.

Infelizmente, retiro o que disse na primeira frase do texto, pois há sim. Vai ficar \”tudo bem\” para alguns poucos.

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