Eis que a coluna desta semana é fruto de um “rolar o feed do instagram”, atividade que me levou a pensar sobre o amor no fim de semana do dia 12/06. Pude observar nesse “rolar de feed” muitos casais aparentemente apaixonados e agradecidos por estarem juntos, solteiros e solteiras aparentemente felizes por não estarem “presos” a uma determinada convenção e alguns solteiros e solteiras aparentemente tristes e desejando “ter alguém” para “completar a metade da laranja”.
Nas sociedades ocidentais, o amor romântico costuma ser apresentado por meio do clichê das duas metades que se procuram para recuperar sua antiga completude. Poucos têm essa sorte, já que se trata de um mito que remonta a Platão. Na mitologia grega, os amantes perfeitos viviam unidos e foram divididos em dois. O amor, portanto, é o desejo de encontrar aquela parte que se perdeu. Esse mito continua vivo em nossa cultura e continua nos influenciando subjetivamente, pois , de certa forma, continuamos procurando nossa “outra metade”, o ideal, esse ideal não existe, haja vista, por exemplo, as taxas de divórcio.
Freud postulou, influenciado pelo pensamento de sua época, e também pela filosofia de Schopenhauer, que toda a pulsão é sexual. Para o pai da psicanálise, o sexo é a causa final de toda ação humana. Assim, todo amor seria derivado da pulsão sexual, tendo-a como meta diretamente, ou senão, como resultado da inibição, sublimação ou recalque neurótico deste objetivo, seja o amor por amigos, filhos, bichinhos de estimação, arte ou time de futebol.
Freud, em sua teorização na época, não pôde considerar a afeição, a ternura, o cuidado pelo outro, senão em forma de uma culpa ou de dívida simbólica que gerariam a inibição do objetivo original do vínculo com o outro, estritamente sexual. O interesse artístico, por exemplo, seria resultado da sublimação desse objetivo e os objetivos da cultura oriundos do recalque. Os sintomas neuróticos seriam “satisfações substitutivas deformadas das forças pulsionais sexuais, das quais a satisfação direta foi frustrada” inconscientemente, tendo em vista a concepção de que há, sempre e necessariamente, uma finalidade sexual envolvida nas relações entre os indivíduos e de que a busca do prazer visa à descarga.
Já, Winnicott entende, ao contrário de Freud, que a intimidade, o concernimento, a amizade, a ternura e a afeição são prazerosos, mas seu prazer não é negativo ou reativo, não se dá por uma descarga de um desprazer, e tampouco derivam da pulsão ou instinto sexual. O amor, segundo Winnicott, depende das capacidades emocionais desenvolvidas pela pessoa desde quando bebê, a partir dos cuidados parentais. As raízes do amor, para Winnicott, assim, são duas: a pulsão sexual e a intimidade entre mãe/pai/cuidador(a) e bebê.
A primeira experiência de amor do bebê será sentir-se amado em seu próprio ser. Essa experiência será fundamental para sua capacidade de sentir-se vivo, de sentir que a vida vale a pena. À medida que o bebê descobre que existe um outro que sobrevive a seus gestos, à sua agressividade espontânea de descoberta do mundo, e também a seus instintos ou pulsões, desenvolverá sua capacidade de concernimento, de zelo para com este outro, seja a mãe, pai ou cuidador(a), e este concernimento gradualmente poderá se expandir para qualquer ‘outro’, tornando-se possível, assim, que o amor se expanda para a vida em geral.
A importância da vida criativa é ressaltada por Winnicott, pois, a criatividade significa espontaneidade. A criatividade no amor reflete-se também no casamento, por exemplo, o tédio nas relações, assinala Winnicott, não é inerente ao amor, mas “resulta do tamponamento da vida criativa, que provém do indivíduo, e não da relação”. O indivíduo saudável é aquele que consegue sentir-se amado pelo outro e pela sociedade “sem perder muito de seus impulsos individuais ou pessoais”.
O amor romântico foi inventado e poderá desaparecer, como seu declínio vem demonstrando. E, não há grande problema nisso, afinal, podemos inventar outras formas.
O mesmo não se pode dizer do amor fraterno, cujo declínio aponta para o fim da civilização. De fato, de todos os amores, o que mais carecemos hoje é o amor fraterno. Afinal, os grandes heróis contemporâneos, em meio a todo o horror que temos vivido, são as pessoas que conseguem amar e se preocupar com o próximo. Usar máscara tem sido a expressão máxima de amor na atualidade.
