O trânsito pode ser definido, de acordo com Rozestraten, como a circulação de pessoas e veículos nas vias, mediada por regras e leis que visam garantir a integridade de seus participantes, implicando sempre na relação com a alteridade e seus inerentes conflitos na disputa pelo espaço, podendo ser marcada pela violência enquanto manifestação da agressividade, em sua forma destrutiva, na relação com o outro, haja vista que há um conflito para saber quem terá primazia para ocupar o espaço, estando em jogo a satisfação pulsional, em outras palavras, o prazer e o desprazer.
No século 19, famílias patriarcais brasileiras achavam indigno que seus filhos, e principalmente as filhas, caminhassem pelas ruas. No século 20, de acordo com Calliari, o automóvel moldou as cidades; o andar a pé passou a ser o meio dos que não têm condição de pagar por outro meio de transporte. Quem tem carro, tem tudo. Quem não tem, anda a pé. Essa desvalorização cultural do andar e do transporte público, infelizmente, ainda refletem na hierarquia da mobilidade urbana.
No Brasil, a violência no trânsito se amplifica devido a acentuada estratificação social, que se manifesta como desigualdade de mobilidade e acessibilidade entre usuários de ônibus, carros, motocicletas, bicicletas e pedestres, na mentalidade individualista que é responsável pela predominância do transporte individual e pela relação ambígua com normas e leis. Calliari ainda nos lembra, que o carro já foi chamado de cigarro do século 21, por ocupar espaço demais e poluir demais. Mesmo sendo uma alternativa para trajetos e situações não cotidianas, já deixou de ser uma solução eficiente para os deslocamentos em massa.
As grandes cidades já se deram conta de que andar a pé traz benefícios concretos para a própria vitalidade urbana. Londres, Nova York, Paris, Bogotá e Buenos Aires reduzem as velocidades dos veículos para 30 km/h ou menos, aumentam áreas de calçadas, bicicletas e ônibus, fiscalizam com rigor e praticam o que chamam de Visão Zero, em que nenhuma morte no trânsito é aceitável.
Oportuníssima foi a leitura de um artigo na ZH, comparando o carro ao novo cigarro e falando sobre a urgente mudança de cultura no que diz respeito à mobilidade urbana. No artigo, o colunista disserta acerca do gigantesco desafio de transformar o transporte público em Porto Alegre, investindo em infra-estrutura e segurança.
Investir em um transporte público de qualidade, criar uma rede de caminhabilidade e oferecer alternativas seguras ao uso obsessivo do carro como importantes estratégias de relações mais saudáveis com a cidade e o meio ambiente.
