A atual crise sanitária e humanitária, pandemia covid-19, é nociva à população mundial, no entanto, é mais nociva às mulheres, sobretudo às mulheres negras. Segundo o Ipea, as mulheres são as responsáveis pela chefia de 48,2% dos lares brasileiros. Vale lembrar que o Ipea é uma fundação pública federal vinculada ao Ministério da Economia e suas atividades de pesquisa fornecem suporte técnico e institucional às ações governamentais para a formulação e reformulação de políticas públicas e programas de desenvolvimento brasileiros.
Num passeio de carro neste fim de semana, em Porto Alegre, deparei-me mais uma vez com a triste e revoltante cena: a “playboyzada”, no bairro Moinhos de Vento, sem máscara, se aglomerando e tomando sua cervejinha no fim do dia. Enquanto isso, há poucos metros, uma senhora com um bebê nos braços pedia dinheiro no semáforo. Nenhum ser humano deveria ser submetido a essas situações de extrema precariedade, sobretudo, numa democracia.
Concordo com Djamila Ribeiro quando ela afirma que o discurso do “basta querer” é perverso, romantizando uma série de violências, pois responsabiliza tão somente o indivíduo, escamoteando que há um processo histórico em nosso país, uma falta de políticas públicas para possibilitar oportunidades. Para falar em mérito, é preciso investigar as oportunidades, conclui a filósofa.
Infelizmente, no Brasil, ficar em casa, isolado, é para quem pode. E a economia? E as empresas? Elas também estão sofrendo e sentindo os impactos. As empresas fazem parte da sociedade e refletem e reproduzem os valores sociais. Por isso, deveriam ter como papel cobrar do governo incentivos para seus funcionários e agilidade na vacinação. É urgente que as empresas possam discutir sobre questões raciais e de gênero, bem como sobre as desigualdades sociais e novos modelos de trabalho remoto, que permitam aos funcionários, principalmente às mulheres, condições de poder seguir trabalhando.
Como analisa uma das adeptas da chamada “Teoria da Reprodução Social”, a historiadora e ativista indiana Tithi Bhattacharya, a crise do coronavírus escancarou o quanto todas as atividades e instituições vinculadas ao trabalho de reprodução e manutenção da vida (hospitais, escolas, creches, serviços de alimentação, limpeza, cuidado dos idosos etc.) são essenciais para a sociedade. O fato é que além de serem infraestruturas e tarefas majoritariamente sustentadas por mulheres, são historicamente desprezadas, não-pagas, mal remuneradas ou mesmo não reconhecidas como trabalho, mas sem as quais não existiria reprodução da força de trabalho e, consequentemente, desenvolvimento capitalista.
Trata-se, portanto, de um conjunto de atividades que não só mantém a vida coletiva e garantem que exista força de trabalho socializada e saudável para a reprodução do capitalismo, como são realizadas em condições muito precárias. Como apontam a economista e socióloga Veronica Gago e Luci Cavallero, o futuro está sendo construído agora. Se pensarmos como as medidas de confinamento e a reconfiguração das formas de trabalho e de consumo que elas implicam (com o teletrabalho, ou \”home-office\”, a escola e universidade em casa, as compras por aplicativos) podem levar a uma reestruturação das relações sociais, de classe, dos parâmetros de renda, das relações de gênero, tendo como ponto de partida o próprio âmbito da reprodução.
Nesse sentido, o espaço do lar, que sempre foi objeto de debate e politização das feministas, pode tornar-se uma espécie de “laboratório da capital\”. Ou seja, de outra forma de organização do trabalho, tendo em vista a forte tendência dessa nova forma de organizar aproveitar-se da crise justamente para flexibilizar ainda mais as relações trabalhistas e explorar ainda mais o espaço doméstico. Isso o tornaria uma “casa-fábrica”, que funciona todos os dias da semana, sem limites de horário, com baixos custos para o capital.
As mulheres são uma parcela importante da classe trabalhadora e, ao mesmo tempo, uma das frações mais exploradas dessa classe (algo que só aumentou com a chamada “feminização” do trabalho). Do ponto de vista prático, se elas, que são metade da população e responsáveis por parir e cuidar da outra metade, param de realizar o trabalho reprodutivo, não existe reprodução de força de trabalho. Constatar isso apenas reforça o quanto a esfera da reprodução é um terreno fundamental de luta política, tendo em vista que, pensar a reprodução, especialmente na atual crise, significa falar sobre a vida e o nosso futuro.
Contemporaneamente, as mulheres vem acumulando cada vez mais funções e isso não acontece porque o seu cérebro geneticamente foi programado para isso. Esse absurdo é utilizado para justificar o acúmulo de funções femininas numa tentativa de usar dados científicos para reforçar estereótipos e isso convém com a cultura neoliberal.
O aumento da vulnerabilidade econômica, da violência e da sobrecarga de trabalho doméstico das mulheres em meio à pandemia é o resultado de escolhas políticas e da deterioração da democracia. Como afirmou Vera Iaconelli, num de seus artigos: “se quisermos que empresas se “sensibilizem” (leia-se, sintam no bolso) com o descalabro a que estão submetidas as mulheres hoje, devemos, enquanto sociedade civil, exigir selo de responsabilização com a nova geração. E acrescento, exigir responsabilização do Estado, ou continuaremos pagando com muitas vidas esse total descaso.
Entro no site do Ipea e me deparo com o slogan: “O instituto que pesquisa e planeja o futuro do país”. Que futuro será que estão planejando? Espero que um futuro pautado pela equidade.
