Neoliberalismo e Psicanálise: Há que se escutar o mal-estar

O dia do trabalho ou do trabalhador, 1° de maio, é celebrado em mais de 80 países. No Brasil, a celebração ocorre, oficialmente, desde 1925. Esse ano, infelizmente, a data foi marcada pela morte de mais de 400 mil pessoas, dentre as quais milhares de trabalhadores e trabalhadoras, vítimas da Covid-19. 

Laplanche denomina de pensamento extramuros, a ideia de que a psicanálise pode se dirigir para fora do tratamento, não para qualquer lugar, mas num movimento em direção ao cultural. A psicanálise começou de fato como um tratamento, na pesquisa clínica com a histeria, mas superou as expectativas iniciais de seu criador, Freud, a ponto de se tornar uma teoria da cultura.

A psicanálise nasce, então, com a modernidade, é contemporânea do desamparo e da alienação do sujeito moderno. Ela não teria razão de existir em sociedades tradicionais, fortemente estratificadas, onde a posição de classe e mesmo o lugar familiar na ordem de nascimento definiam o destino dos sujeitos. O ganho de liberdade do sujeito moderno cobra seu preço na forma da alienação e da servidão voluntária, inconsciente.

Atualmente, podemos falar em sujeito do neoliberalismo. Talvez o sujeito do neoliberalismo corresponda à necessidade de aperfeiçoamento desta alienação: ele de fato se acredita livre, uma vez que não tem condições de perceber de que modo o sistema econômico atual é capaz de dispensar a figura tradicional do empregador e deixar que recaia sobre o próprio trabalhador o ônus da exploração de sua máxima capacidade de trabalho. Nesse sentido, há sim um mal-estar próprio da cultura neoliberal. 

O sujeito do neoliberalismo é uma versão atualizada do “self made man” que inaugurou o capitalismo. Aprendemos com Marx e os pensadores da Escola de Frankfurt que cada modo de produção engendra as formas de subjetividade de que necessita. Assim, o sujeito do neoliberalismo não é mais exatamente o mesmo daquele da modernidade clássica. Importante ressaltar que não só o paciente mudou, mas nós, psicoterapeutas, também, mudamos. 

As características de nossa sociedade neoliberal na qual impera um capitalismo selvagem, globalizado e uniformizado, na qual quanto mais o discurso científico se exercita no sentido da uniformização, tanto mais o disforme tende a se manifestar, e esse disforme estritamente particular é o gozo, aquilo que faz do outro um outro que só me resta odiar já que põe em xeque minha forma de gozar que tanto idealizo. A sociedade em que vivemos oferece a ilusão de gozar sem entraves e, como isso é impossível, o sujeito pode se transformar em vítima, figura que vem se tornando segundo alguns a metáfora da nossa condição contemporânea. Essa posição subjetiva de vítima se caracteriza pelo fato dela viver exclusivamente no registro da demanda, exigindo reparação e ressarcimento. 

A vítima, assim entendida, deixa de ser vítima dos riscos e responsabilidades relacionadas ao engajamento em seu desejo, sua vida, e se torna vítima de circunstâncias desfavoráveis, e deixa de ser um sujeito engajado na própria vida, com todos os riscos decorrentes do exercício de seu desejo. Essa ideologia da vitimização se refere também na oferta, escuta e interpretação do psicoterapeuta que pode ser levado a confundir uma infelicidade ordinária com uma patologia, razão pela qual é bom ficarmos alertas para não nos transformarmos em técnicos da felicidade evitando conflitos.

Para o filósofo Han, chegamos a isso: a exploração mesmo sem patrão, já que o introjetamos. Quem é o pior senhor se não aquele que mora dentro de nós? Em nome de palavras falsamente emancipatórias, como empreendedorismo, ou de eufemismos perversos como “flexibilização”. O excesso de trabalho e desempenho agudiza-se na autoexploração. Essa é mais eficiente que uma exploração do outro, pois caminha de mãos dadas com o sentimento de liberdade. O explorador é, ao mesmo tempo, o explorado. Assim, agressor e vítima não podem mais ser distinguidos.

Há que se escutar o mal-estar e não calá-lo, vivê-lo num processo de interrogação, vivê-lo como movimento. Não há potência total, não há tudo é possível, não há Yes, we can. Não ter potência total não é o mesmo que ser impotente.

A psicanálise é um poderoso dispositivo de emancipação subjetiva.  Para Maria Rita Kehl, o sujeito que passa por um processo de análise/psicoterapia, se bem sucedido, abandona sua “servidão voluntária” em nome de um compromisso com seu desejo. Ao ganhar uma certa (não completa) autonomia, este sujeito se torna menos dócil, mais criativo. Isso afeta seu modo de participar do laço social. 

A conclusão de uma análise/psicoterapia passa pelo reconhecimento, por parte do sujeito, de sua castração simbólica, condição de sua inserção no laço social. É possível, que ao final de uma análise/psicoterapia, o sujeito se torne mais sensível ao que se passa com o outro, seu semelhante, seu irmão. Pode, assim, tornar-se mais generoso, mais capaz de solidariedade e de empatia. 

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