Nesse fim de semana, mais uma de minhas leituras chegou ao fim. Me sinto, temporariamente, órfã de leitura. “Sobre os ossos dos mortos” de Olga Tokarczuk nos faz (me fez e muito!) refletir sobre questões humanas e existenciais. A escrita sensível e contundente vai explorando importantes reflexões sobre as instituições, a religião, a velhice e, principalmente, a relação entre seres humanos e a natureza, fauna e flora. A autora polonesa e vencedora do Nobel de literatura de 2018, ao longo dessa obra, nos faz pensar criticamente sobre a hierarquia entre seres humanos e animais.
A leitura me levou à Naim Akbar, psicólogo e estudioso da psicologia preta, e na perspectiva africana de ser humano, na qual, nós, seres humanos, seríamos parte finita de uma divindade cósmica e espiritual infinita que constitui o universo, não havendo hierarquia. Ou seja, “eu sou porque nós somos” que constitui o conceito de UBUNTU. Nessa perspectiva, o sentido da existência só se realiza na coletividade, na conexão.
Coletividade e conexão, conceitos e experiências tão esvaziados atualmente. “Sabe, às vezes eu acho que estamos vivendo em um mundo que fabricamos para nós mesmos. Decidimos o que é bom e o que não é, desenhamos mapas de significados para nós… E então passamos a vida toda lutando contra aquilo que inventamos para nós mesmos. O problema é que cada um de nós tem a própria versão desse mundo, por isso as pessoas têm dificuldade de entender umas às outras”.
O governo do RS emitiu recentemente avisos sobre a situação da pandemia para 17 das 21 regiões. Assim, observamos as UTIs lotando novamente, em função do aumento do número de casos, pois individualmente muitos já decretaram o fim da pandemia. No instagram chovem posts e stories de viagens, passeios e aglomerações, pois, afinal, “já estamos vacinados”.
Esse “cada um por si”, como nos lembra Iaconelli, que nos faz padecer desgraçadamente. Esse mantra do self-made man que se alavanca às expensas de um outro considerado inferior, interpretação darwinista que finge ignorar a história e a linguagem. A natureza humana não está dada a priori, pois é inseparável da história, da linguagem e da ética de cada um.
Nós seres humanos podemos até sermos considerados racionais, inteligentes, no entanto, a história até aqui tem nos revelado pouco sábios. A destruição do planeta que habitamos e do qual dependemos inteiramente para viver é prova dessa falta de sabedoria. Temos muito a aprender com a senhora Dusheiko, protagonista do livro.
