Todo racismo é ruim, mas o nosso é terrível

Todo racismo é ruim, mas o nosso é terrível. Para Lilia Schwarcz, o racismo brasileiro é pautado naquilo que Florestan Fernandes falava, ainda nos anos 1970, e que Kabengele Munanga tem dito recentemente, que é o preconceito pautado no preconceito de ter preconceito e isso não cria a possibilidade de autorreflexão. Muitas pessoas apoiam-se na ideia de que “é o meu amigo, a minha mãe, meu pai, meu tio, o meu marido que são racistas, eu não. 

O racismo estrutura a sociedade e, assim sendo, está em todo lugar. O Brasil é a maior nação negra fora da África, somando 54% da população, e mesmo sendo maioria, os negros, estão fora dos lugares de poder e experimentam em larga maioria os piores índices de desenvolvimento humano.

Em 1888 houve a abolição formal, mas nenhuma política de inclusão das pessoas negras, pelo contrário. Ao passo que foi estimulada a vinda de imigrantes europeus, que receberam terras e oportunidades, pessoas negras foram marginalizadas de qualquer contato com o poder econômico e destinadas a serem base de exploração que, no caso das mulheres negras, se somam ao patriarcado. Nas palavras de Carla Akotirene, mulheres negras são a matriz geradora pois geram as vidas que serão a base do sistema. 

Ao longo da história, o projeto de miscigenação foi romanceado no país, como manifestação sublime da democracia racial, pensamento do sociólogo Gilberto Freyre, no sentido de que no Brasil teria havido a transcendência racial com a convivência harmoniosa entre brancos, negros e indígenas. Então, de acordo com esse pensamento, não existe racismo no Brasil, apenas desigualdade entre ricos e pobres.

É imprescindível conhecermos a história do Brasil para compreender que foram criados mecanismos legais para afastar pessoas negras de possibilidades de emancipação social. Analisando a história, temos muitos exemplos: Constituição Federal de 1824 vedava o acesso de pessoas negras à educação, a Lei de Terras de 1850 condicionava o acesso a terras à compra e venda, e naquele contexto nenhuma pessoa escravizada estava apta a possuir uma propriedade, entre tantas leis de escravização.

Com o fim formal da escravidão, houve um processo de criminalização de pessoas negras, sobretudo homens, alvos de leis como a vadiagem, que determinava a prisão de pessoas “sem ocupação\”, numa época de alto desemprego para os homens negros. Já as mulheres negras foram destinadas ao trabalho doméstico, uma herança presente até hoje. Atualmente, estima-se que mais de 6 milhões de mulheres negras são empregadas domésticas no país. A lei que regulamenta a profissão foi aprovada somente em 2013, sob intensos protestos do sistema que se beneficiou historicamente desse trabalho.

Djamila Ribeiro afirma que é muito importante perceber o racismo como uma estrutura que opera independentemente da vontade do sujeito que o repudia moralmente. Trata-se de um sistema que cria privilégios em detrimento de grupos sociais. É um sistema que se atualiza e busca manter a dinâmica dessa desigualdade. É impossível não ver o racismo, uma vez que ele organiza a sociedade.

Em seu último texto para a Folha, Djamila escreve: “Em tristes tempos de pandemia, a fila de vacinação é composta majoritariamente por pessoas brancas, pois é o grupo racial com maior expectativa de vida no país, também é uma manifestação do racismo. Em contrapartida, ela segue “já se formos direcionar nossos olhares para a fila de pessoas em busca de marmitas doadas, cada vez mais escassas frente à redução de doações na pandemia, podemos perceber quem não pode ficar em casa, pois a fome mora debaixo do mesmo teto. Percebemos mulheres negras segurando seus filhos no colo, em busca de um prato de comida”.

Racismo, machismo, lgbtfobia são produtos da máquina colonial de produção de subjetividade, produtos que operam um corte na realidade e que dividem o mundo num arranjo que compõe quem exerce violência e quem a sofre. Opressão do branco sobre o negro, do homem sobre a mulher, do cis sobre a/o trans, do hétero sobre o homossexual. Este mundo, tal como o conhecemos, se funda na violência.

Vivemos num país antinegro, e isto tem efeitos nocivos sobre as subjetividades negras. O termo subjetividade, aqui, refere-se à produção de modos de ser, estar, sentir e perceber o mundo. 

Neusa Santos, psicanalista, afirma que o branco como ideal e como marca do desejo faz com que o negro se engaje em formas de se aproximar desse ideal branco, aproximação que tem como objetivo e como efeito apagar os signos corporais do corpo negro, afilar seus traços como alisar ou raspar os cabelos, e, no limite, desejar o apagamento total do corpo negro, sua própria extinção. 

A experiência da negritude é marcada pelo desprezo e pelo ódio que a branquitude projetou sobre as vidas negras desde a escravidão até os dias de hoje. O racismo, reitero, é um sistema que extrapola as experiências individuais. Hoje, os brasileiros até admitem que há racismo no país, mas ninguém admite ser racista ou conivente com uma estrutura que sistematicamente discrimina negros e negras nas áreas da saúde, da educação e do trabalho. De tão naturalizado, há quem finja não enxergar esse sistema persistente de subordinação.

Quem inventou o racismo foi a sociedade branca. Portanto, cabe a nós brancos nos associarmos, como aliados, à luta antirracista, termo proposto por Angela Davis e, no Brasil, difundido por Djamila Ribeiro. Por isso, precisamos agir de forma antirracista em todos os espaços. informar-se sobre o racismo, reconhecer privilégios da branquitude, ler autores negros, questionar a cultura que consumimos e conhecer nossos desejos e afetos, por exemplo, são atitudes essenciais para que o processo de mudança aconteça.

A nós, psicoterapeutas, cabe ressaltar que o sofrimento psíquico não é da ordem da intimidade, ele é político. Nosso inconsciente é colonial. É urgente descolonizar o inconsciente. Nossa escuta e nossa prática clínica também precisam ser antirracistas.

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